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61 mi brasileiros começaram 2020 endividados, diz CNDL/SPC Brasil

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No acumulado de 2019, alta foi de 4,4%. Mais da metade dos consumidores inadimplentes deve, em média, R$ 1 mil

O número de brasileiros com contas em atraso caiu pelo segundo mês seguido e encerrou dezembro de 2019 com uma pequena queda de -0,2% na comparação com o ano anterior. No ano, houve alta de 4,4% no número de inadimplentes com relação a 2018.

A estimativa é que aproximadamente 61 milhões de brasileiros tenham começado o ano de 2020 com alguma conta em atraso e com o CPF restrito para contratar crédito ou fazer compras parceladas.

Os dados foram divulgados nesta quinta-feira (16) pela CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) e pelo SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito). 

“A expectativa é de que a inadimplência siga em queda pelos próximos meses, mas a passos lentos. A aceleração desse quadro passa pela continuidade da melhora econômica e, em especial, daquilo que toca diretamente o bolso do consumidor: emprego e renda”, diz Roque Pellizzaro Junior, presidente do SPC Brasil.

Pellizaro Junior destaca que mesmo com a inadimplência caindo aos poucos, as famílias ainda enfrentam dificuldades para honrar seus compromissos em dia, tanto é que há um estoque elevado de pessoas com contas sem pagar

Mais da metade tem dívida em atraso de até R$ 1 mil

Somando todas as pendências, cada consumidor inadimplente deve, em média, R$ 3.257,91. Já descontando os efeitos da inflação, os valores observados agora são 30% menores do que no início da série histórica, em 2010 (R$ 4.238,32).

De acordo com o levantamento, pouco mais da metade (52,8%) dos inadimplentes tem dívidas em atraso de até R$ 1 mil.

Em dezembro, o recuo mais expressivo da inadimplência na comparação anual se deu nas dívidas com o setor de comunicação, que englobam contas de telefonia, internet e TV por assinatura: queda de -16,4%.

As dívidas bancárias, que levam em conta cartão de crédito, cheque especial, empréstimos e financiamentos, caíram -1,9%. Já o as dívidas contraídas no comércio via crediário subiram 0,9%, enquanto as pendências básicas com água e luz cresceram 2,1%.

No geral, considerando todos os tipos de dívidas em atraso, houve queda de -3,3% na comparação anual.

Nordeste registrou recuo de 3,2% na inadimplência

Analisando os resultados por região, o Nordeste apresentou a queda mais expressiva na quantidade de inadimplentes, um recuo de 3,2% na comparação entre dezembro de 2019 e dezembro de 2018.

No Sudeste, a variação foi pequena e ficou em 0,7%, ao passo que houve um avanço de 4,8% no Norte e de 3,8% no Centro-Oeste.

De modo geral, o Norte é a localidade mais inadimplente em termos proporcionais: a estimativa é que 47,2% dos residentes adultos da região estejam com o CPF negativado, ou 5,9 milhões de consumidores nessa situação.

Em seguida aparece o Centro-Oeste (42,4% ou 5,1 milhões de inadimplentes), Nordeste (40,2% ou 16,6 milhões de negativados), Sudeste (37,4% ou 25,2 milhões de pessoas com contas em atraso) e Sul (35,5% ou 8,2 milhões de inadimplentes.

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Municípios de MG e do ES recebem cerca de R$ 370 milhões para investimentos em saúde

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Recursos compensatórios são destinados à reestruturação das redes de atenção à saúde pública nas localidades impactadas 

Os municípios mineiros e capixabas impactados pelo rompimento da barragem da Fundão, em Mariana (MG), têm à disposição cerca de R$ 370 milhões em recursos compensatórios para estruturar as redes de atenção à saúde e assegurar a integralidade do cuidado e da assistência médica aos atingidos e à população em geral. Parte dos recursos, cerca de R$ 150 milhões, foi depositada em juízo no dia 20 de setembro.

Os recursos de caráter compensatórios, desembolsados antes e durante a pandemia causada pelo novo coronavírus, representam no médio e longo prazo investimentos em ações estruturantes na área de saúde para as comunidades atingidas.

“O financiamento de ações compensatórias pela Fundação Renova para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) contribuirá para a atenção à saúde de toda população nos municípios atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão. A alocação dos recursos foi definida pelos gestores estaduais”, diz Wagner Tonon, gerente do Programa de Apoio à Saúde Física e Mental da População Impactada.

Alocação dos recursos 

Parte do montante, cerca de R$ 150 milhões, será aplicada na estruturação do Sistema Único de Saúde (SUS), fortalecendo e otimizando as Redes de Atenção à Saúde ao longo da bacia do rio Doce. Serão R$ 82,8 milhões para o Estado de Minas Gerais, R$ 60 milhões para o Estado do Espírito Santo e R$ 7,2 milhões para 36 municípios mineiros. A homologação da destinação dos valores aconteceu no último dia 23 de agosto pela 12ª Vara Federal de Belo Horizonte (MG) e estava prevista no Eixo Prioritário 11, atendendo à deliberação 470 do Comitê Interfederativo (CIF).

DISTRIBUIÇÃO DOS RECURSOS – R$ 150 MILHÕES

MINAS GERAIS
HOSPITAL DE GOVERNADOR VALADARES

R$ 54,3 milhões

SAMU LESTE DO SUL

R$ 28,4 milhões

R$ 82,8 milhões

ESPÍRITO SANTO
UPA LINHARES

R$ 9,6 milhões

UPA COLATINA

R$ 9,6 milhões

HOSPITAL BAIXO GUANDU

R$ 25,5 milhões

EQUIPAMENTOS E AMBULÂNCIAS

R$ 15,2 milhões

R$ 60 milhões

MUNICÍPIOS DE MINAS GERAIS
APOIO À SAÚDE PÚBLICA MUNICIPAL

R$ 7,2 milhões

TOTAL (cerca de)

R$ 150 milhões

Combate ao coronavírus

Além disso, mais de R$ 120 milhões já foram repassados, em abril de 2020, para serem usados nas ações de combate à pandemia do novo coronavírus. Desse valor, R$ 84 milhões foram para Minas Gerais e R$ 36 milhões para o Espírito Santo. 

Minas Gerais destinou mais de R$ 51,2 milhões para a aquisição de 1047 respiradores para o combate à Covid-19. Já o Espírito Santo destinou mais de R$ 18,7 milhões para aquisição de 250 respiradores para o combate à Covid-19. Também foram alocados cerca de R$ 6,8 milhões para reformas e adequações no Hospital e Maternidade Sílvio Avidos, em Colatina, e no Hospital Geral de Linhares, e para a aquisição e instalação de estativas no Hospital Estadual de Urgência e Emergência de Vitória (HEUE – Antigo Hospital São Lucas). Como resultado, a oferta de leitos nos hospitais está sendo ampliada. Ao todo, estão sendo abertos 95 novos leitos, sendo 44 em Linhares, 18 em Colatina e 33 em Vitória. 

Os dois estados planejam a aplicação do valor restante disponível.

DISTRIBUIÇÃO DOS RECURSOS – R$ 120 MILHÕES

MINAS GERAIS
AQUISIÇÃO DE VENTILADORES PULMONARES

R$ 51,3 milhões

RECURSOS EM PLANEJAMENTO PELO ESTADO

R$ 32,8 milhões

R$ 84,1 milhões

ESPÍRITO SANTO
AQUISIÇÃO DE VENTILADORES PULMONARES

R$ 18,8 milhões

HOSPITAL COLATINA E LINHARES 

R$ 5,2 milhões

HOSPITAL VITÓRIA

R$ 1,7 milhão

RECURSOS EM PLANEJAMENTO PELO ESTADO

R$ 10,4 milhões

R$ 36 milhões

TOTAL (cerca de)

R$ 120,1 milhões

Destaca-se, também, a destinação de recursos para a saúde pela Agenda Integrada para a conclusão das obras do Hospital Regional de Governador Valadares (MG) com investimento total de R$ 75,3 milhões. 

Mariana e Barra Longa

Em Mariana (MG), os investimentos para o fortalecimento do SUS chegaram até o momento ao valor de R$ 16,2 milhões. As ações incluem o financiamento de 34 profissionais de saúde, após processo seletivo e contratação direta pela Prefeitura de Mariana; reforma e ampliação do Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSij), que proporciona atendimento psicológico, psiquiátrico e psicossocial para crianças e adolescentes; locação de imóvel específico com a aquisição dos equipamentos e mobiliário necessários para atuação da equipe do Conviver, que presta serviços à população atingida na área de saúde mental; disponibilização de veículos e outras.

Já as ações em Barra Longa (MG), preveem o valor de R$ 8 milhões para fortalecimento do SUS local, ao longo de dois anos, prestando apoio para execução do plano de ação de saúde.  A maior parte do investimento, cerca de R$ 6 milhões, é destinada à contratação de 16 profissionais de saúde para atuação nas áreas de Atenção Primária da Saúde (médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem), Saúde Mental (psicóloga e psiquiatra) e Vigilância em Saúde (profissionais de nível médio, técnico e superior). Além disso, a Fundação Renova está financiando um Programa de Capacitações Técnicas, já em andamento, para os profissionais do SUS.

CERCA DE R$ 370 MILHÕES EM INVESTIMENTOS

AÇÕES ESTRUTURANTES

R$ 150 milhões

AÇÕES COVID-19

R$ 120 milhões

AGENDA INTEGRADA

R$ 75,3 milhões

AÇÕES MARIANA

R$ 16,2 milhões

AÇÕES BARRA LONGA

R$ 8 milhões

TOTAL (cerca de)

R$ 370 milhões

Sobre a Fundação Renova

A Fundação Renova é uma entidade de direito privado, sem fins lucrativos, constituída com o exclusivo propósito de gerir e executar os programas e ações de reparação e compensação dos danos causados pelo rompimento da barragem de Fundão.

A Fundação foi instituída por meio de um Termo de Transação e de Ajustamento de Conduta (TTAC), assinado entre Samarco, suas acionistas Vale e BHP, os governos federal e dos estados de Minas Gerais e do Espírito Santo, além de uma série de autarquias, fundações e institutos (como Ibama, Instituto Chico Mendes, Agência Nacional de Águas, Instituto Estadual de Florestas, Funai, Secretarias de Meio Ambiente, dentre outros), em março de 2016.

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Brasil

Dia do Aviador é comemorado em 23 de outubro e as pioneiras da aviação brasileira não têm seus nomes em aeroportos do Brasil

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Por Paulo Borges e Angela Gusmão

Apesar das homenagens e comemorações, a aviação brasileira carece de reconhecer a importância das aviadoras que foram também pioneiras na paixão de voar. Não se tem conhecimento de nenhum aeroporto no Brasil com o nome de uma delas. Tem aeroporto com nome de músico, de empresário e até, pasmem, de político que não tem nenhuma afinidade com a aviação e alguns até demonstram medo de voar, mas tem aeroportos com seus nomes.

Todo menino sonha, normalmente, em seguir duas profissões: bombeiro e aviador. Aquele menino, lá do interior do Brasil, quando ouve o ruído de um avião que passa sobre seu povoado, bem alto, deixando uma esteira de fumaça, desperta naquele o sonho de voar. Nas cabines de muitas aeronaves existe esse menino que um dia sonhava e hoje seu sonho virou realidade. Um longo caminho, uma dedicação intensa aos estudos e a determinação de cruzar os céus no comando de uma máquina sob seu domínio.

Neste 23 de outubro comemoramos o Dia do Aviador; o Dia da Força Aérea! Um dia em que aquele menino que olhava sempre para o céu, ao simples ruído de um motor, agora, sonho realizado, pode continuar olhando para o céu, pois está mais perto do infinito e sabe que pousará em terra seguro com a sua máquina.

Mas existe um fato que não se compreende quando nos debruçamos sobre a história da aviação brasileira. Assim como os meninos, as meninas também tinham os mesmos sonhos de se tornarem aviadoras. E conseguiram realizá-los. Se hoje as mulheres estão cada vez mais presentes no cockpit de aviões e helicópteros país afora, é porque quatro aviadoras desbravaram esse caminho. Mas, não basta serem homenageadas com medalhas e comendas que acabam esquecidas em uma gaveta. É preciso que sejam lembradas dando seus nomes aos aeroportos brasileiros. É uma questão não só de reconhecimento como de justa homenagem.

Para não esquecer a história…

Uma das maiores emoções na vida de um aviador certamente é o primeiro voo solo, em que ele decola, voa e pousa sozinho, sem ter o auxílio de um instrutor. O coração bate acelerado e o checklist é lido em voz alta, assim como os procedimentos a serem executados na cabine. Manete à frente, corpo colado contra o assento e o ruído do motor em regime de decolagem. Em poucos segundos, o avião deixa o solo e o piloto ri sozinho, numa mistura de emoção e felicidade, e o pensamento dividido entre o voo daquele momento e o do futuro, nos comandos, quem sabe, de uma grande aeronave comercial.

O privilégio de alçar voo pela primeira vez e ter a chance de progredir na carreira de aviador era, até pouco tempo atrás, quase um privilégio dos homens. Mas as mulheres vêm ocupando cada vez mais espaço e hoje são milhares de aviadoras em todo mundo, seja no comando de um widebody, como no coletivo de um helicóptero em missões offshore. Mas não foi fácil no começo. Se hoje elas estão cada vez mais presentes nas cabines, podemos atribuir essa vitória ao pioneirismo das primeiras aviadoras que venceram preconceitos e demonstraram que tinham a mesma habilidade ou até mais destreza na pilotagem do que muitos pilotos do sexo masculino. Essas grandes aventureiras tornaram-se heroínas e os verdadeiros exemplos para as mulheres pilotos nos dias de hoje.

Antes mesmo da “pioneiríssima” norte-americana Amélia Earhart, a primeira mulher a atravessar o Atlântico Norte em voo solo, outras aventureiras já haviam se arriscado pelos ares, como a cubana Aida de Acosta, que teve como instrutor o brasileiro Alberto Santos Dumont, e pilotou o dirigível de número “9” em 14 de julho de 1903. Foi o próprio brasileiro quem também deu asas à primeira passageira a voar num balão, aliás, uma compatriota. Eglantina Prado subiu aos céus de Paris a bordo do balão Lutèce em 10 de agosto de 1907.

Joaninha e Ada (de óculos), juntas.

Eglantina não ganhou tanto destaque na mídia quanto as primeiras aviadoras brasileiras que, por mérito, são lembradas pelos grandes feitos na história da aviação. Elas arriscaram a vida e venceram preconceitos e até mesmo a desaprovação de familiares. A paulista Joana Martins Castilho D’Alessandro foi uma das raras exceções. Ela, ao contrário de outras, foi muito incentivada pelos pais e acabou se tornando a aviadora acrobata mais jovem do mundo, fato que lhe rendeu menção no Guiness Book, o livro dos recordes. Com apenas 14 anos de idade, realizou o voo solo e, com 15 completos, ganhou o primeiro campeonato de acrobacia em 26 de outubro de 1940. Na época, ficou conhecida como a “namorada dos ares”. Foi campeã novamente no ano seguinte.

A precocidade chamou atenção das autoridades. Recebeu o brevê das mãos do então presidente da República, Getúlio Vargas, que ainda prometeu dar-lhe de presente 100 horas de voo. Pura demagogia. No final das contas, o governo não pagou uma hora de voo sequer, mas também não fizeram a menor falta. Joana continuou recebendo do pai os subsídios necessários para a realização dos voos, que tinham como principal objetivo o incentivo para que outras mulheres pudessem se engajar na carreira aeronáutica.

Joana, que nasceu em 10 de novembro de 1924 na cidade de São Paulo, considerava-se cidadã de Taubaté, onde morou boa parte da vida. Sua foto estampou até o rótulo de um refrigerante que era produzido na região e ficou conhecido como “Guaraná Joaninha”, uma alusão ao apelido carinhoso atribuído à aviadora de Joana. Até refrigerante teve o nome de aviadora, mas nenhum aeroporto tem o nome de uma dessas pioneiras da aviação. A aviadora faleceu no dia 14 de junho de 1991, e seus restos mortais estão sepultados no Cemitério da Quarta Parada, na cidade de São Paulo.

A primeira brevetada

Ainda hoje paira uma dúvida sobre qual aviadora realmente teria sido a primeira a receber o brevê no Brasil: Thereza de Marzo ou Anésia Pinheiro Machado. Para o jornalista especializado em aviação e historiador, Roberto Pereira, não há dúvidas. “As duas receberam os brevês com a diferença de apenas um dia e, sem dúvida nenhuma, Thereza foi a nossa pioneira”, afirma Pereira. A aviadora nasceu em 6 de agosto de 1903, em São Paulo, e desde cedo cultivou o gosto pela aviação. Encontrou resistência no pai, que dizia que lugar de mulher era dentro do lar. Ela não abandonou seu sonho de menina e recebeu o brevê nº 76 de Piloto-Aviador da Fédération Aeronautique Internacionale no dia 8 de abril de 1922, tornando-se oficialmente a primeira aviadora brasileira. Mas, acabou se casando com o instrutor Fritz Roesler e, o que ninguém esperava era que o até então grande incentivador cortaria as asas da piloto de uma maneira tão drástica. O fantasma dos velhos preconceitos se fez presente e ela deixou de voar atendendo pedido do marido que alegou que bastava um aviador na família. A aviadora se resignou, abandonando a grande paixão de voar, com um total de 329 horas e cinquenta e quatro minutos de voo em caderneta

Thereza de Marzo e Anésia Pinheiro Machado, as primeiras aviadoras brasileiras.

Apesar de abandonar a pilotagem, Thereza de Marzo continuou trabalhando ao lado do marido em empreendimentos voltados para a aviação, que incluíram a criação da Escola de Pilotagem e do Clube de Planadores, no Campo de Marte, em São Paulo. Nos hangares, Roesler, que também era engenheiro, construiu os primeiros planadores EAY-101 e aviões “Paulistinha” EAY-201, modelo que tinha projeto baseado na versão americana do Taylor Cub.

Em 1976, já com 73 anos de idade, Thereza de Marzo foi condecorada com a Ordem do Mérito Aeronáutico. Faleceu dez anos depois, em 9 de fevereiro de 1986, e seu corpo está sepultado no cemitério do Araçá, em São Paulo. Mas não foi lembrada por nenhum político e nem pelo Ministério da Aeronáutica para que seu nome fosse dado a algum aeroporto brasileiro. Até o de

Salvador, que se chamava Dois de Julho, virou Eduardo Magalhães, por indicação do seu pai o polêmico Antônio Carlos Magalhães. Ambos eram políticos.

Os brevês das primeiras aviadoras brasileiras: Thereza ficou com o número 76, enquanto Anésia obteve a carteira com o número 77.

De olho no sucesso de Thereza de Marzo e no destaque que a mídia deu ao reide da Independência realizado entre São Paulo e Santos, Anésia resolveu apostar num voo mais longo para que pudesse também merecer a atenção da imprensa e das autoridades. Executou um trecho interestadual entre as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. O voo foi operado em monomotor Caudron G3, o mesmo tipo operado por Thereza, batizado com o nome de “Bandeirante”. Nos dias atuais, um voo neste trecho é realizado em apenas 40 minutos em aeronaves a jato, mas, naquela época, representava um grande desafio. Anésia levou quatro dias para chegar ao seu destino final, mas voava apenas uma hora e meia por dia, já que tinha que parar para reabastecer e executar a manutenção de rotina. Na chegada ao Rio de Janeiro, foi recepcionada por autoridades governamentais e o aviador Alberto Santos Dumont, que lhe deu uma medalha de ouro, réplica de uma condecoração que recebeu da princesa Isabel. A medalha virou amuleto da sorte de Anésia, que a carregou consigo até o final da vida.

Foram muitos desafios, que exigiram coragem, superação e boa pilotagem. Anésia Pinheiro Machado acabou oficialmente reconhecida e proclamada como Decana Mundial da Aviação Feminina, em 1954, pela Federação Aeronáutica Internacional (FAI), durante a Conferência de Istambul, na Turquia. Anos antes, fora convidada pelo governo norte-americano para realizar um curso avançado de aviação na CAA (Civil Aviation Administration), hoje denominada FAA, a administração federal de aviação civil dos Estados Unidos. Também frequentou as aulas de

voos por instrumentos ministradas em Nova York nas instalações da Pan American World Airways, sendo que o convite partira da própria companhia norte-americana.

Anésia ganhou tanto prestígio na América do Norte que, durante uma de suas viagens, conseguiu atrair atenção das autoridades ligadas à exploração espacial. Ela fazia campanha para que uma das crateras da Lua recebesse o nome de Alberto Santos Dumont e, no final das contas, seu esforço acabou sendo recompensado. Durante a 15ª Assembleia Geral da União Aeronáutica Internacional, realizada na Austrália, foi aprovado o nome do aviador como nova designação da cratera, antes batizada como Hadley-B. Detalhe: até hoje nenhuma área da Lua tem o nome dos irmãos Wright, considerados pelos norte-americanos os verdadeiros inventores do avião. A cratera Santos Dumont está localizada nas imediações do lugar onde pousou a nave espacial Apollo 15, que executou a primeira missão de caráter eminentemente científico e a primeira que utilizou o jipe lunar.

Anésia faleceu no dia 10 de maio de 1999. Cremada, teve as cinzas transferidas para uma urna, hoje exposta no acervo do Museu do Cabangu, localizado na cidade mineira de Santos Dumont, e que se dedica à preservação da memória do chamado “pai da aviação”.

Aviação está no sangue

A aviadora Ada Leda Rogato, ou simplesmente Ada Rogato, como ficou conhecida. Nascida em 22 de dezembro de 1910, na capital paulista, ela começou a vida trabalhando como funcionária pública, mas, cultivou desde cedo sua paixão pelo voo, lendo nos jornais todas as notícias sobre os reides e as novas façanhas dos ases em suas máquinas voadoras. Ada tornou-se a primeira mulher a obter o brevê de piloto de planador e de paraquedista, e a terceira a conseguir a licença para operar aeronaves convencionais, em 1935. Antes de se lançar em reides históricos durante a década de 1950, a aviadora já ganhava destaque em todo o território, utilizando suas habilidades para atrair o público em diversos shows aéreos. Com a eclosão da Segunda Guerra

Mundial, realizou voluntariamente nada menos que 213 voos de patrulhamento no litoral do Estado de São Paulo e, em 1948, tornou-se pioneira do polvilhamento aéreo, quando foi convidada pelas autoridades para ajudar no combate à praga da broca-do-café.

Durante os anos 1950, o nome de Ada Rogato passou a ser pronunciado em todos os cantos das Américas. Em 1956, ela foi convidada para participar da comissão organizadora das comemorações pelo cinquentenário do 1º voo do 14-Bis. Voou de Norte a Sul do país, percorrendo nada menos que 25.000 km em 163 horas de voo. Além de divulgar os feitos de Santos Dumont, Rogato também transportou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, atendendo a um pedido das autoridades eclesiásticas. O interessante é que os voos não se restringiram às áreas mais populosas. A aviadora cruzou a selva amazônica, sem se perder, utilizando apenas uma bússola. Foi justamente graças a essa excelente habilidade como navegadora, que Ada Rogato conseguiu anos antes cruzar as Américas, chegando até o estado norte-americano do Alasca.

Para a jornada, utilizou um pequeno monomotor Cessna 140 prefixo PT-ADV, batizado com o nome “Brasil”, atualmente exposto no Museu TAM, localizado em São Carlos, interior de São Paulo. O voo da Ada Rogato praticamente coincidiu com o reide pelas Américas de Anésia Pinheiro Machado sendo que, enquanto sua contemporânea recebia homenagens no Chile, ela partia do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Os detalhes dessa interessante viagem entre outras curiosidades estão descritos com muita precisão no livro “Ada – Mulher, Pioneira, Aviadora”, de Lucita Briza, que talvez ainda possa ser encontrado em grandes livrarias.

A paulista Joana Martins Castilho D’ Alessandro recebe prêmio de campeã em campeonato de acrobacia realizado no Rio de Janeiro.

A aviadora recebeu diversas homenagens e condecorações ao longo da vida e também póstumas, lembrando que os correios lançaram, em março do ano 2000, selos postais estampando as mulheres pioneiras da aviação brasileira incluindo uma imagem comemorativa dos 50 anos do primeiro sobrevoo dos Andes por Ada Rogato e o seu “Brasileirinho”, um avião do modelo CAP-4. Seus últimos anos de vida foram dedicados à preservação do antigo Museu de Aeronáutica de São Paulo, que funcionava no Parque do Ibirapuera, mas que acabou

sucumbindo aos cupins e principalmente à falta de vontade política em preservar a memória da aviação no Brasil. Talvez o desgosto por ver tamanho descaso tenha acelerado o processo de degradação do seu corpo diante de um tumor maligno. Ada Rogato faleceu em 15 de novembro de 1986, aos 76 anos. Seu corpo foi velado no Museu de Aeronáutica e as homenagens ficaram por conta de uma apresentação especial da Esquadrilha da Fumaça. Os restos mortais da aviadora estão depositados atualmente na gaveta de número 368 do ossário do cemitério de Santana, em São Paulo.

Vale constatar…

As mulheres nos dias de hoje ocupam cabines em inúmeras aeronaves voando pelo mundo. Mas não podemos esquecer daquelas pioneiras que em época em que o preconceito era muito presente, não desistiram de seus sonhos e com coragem e competência conseguira decolar com suas aeronaves para o céu, onde devem estar em lugar muito especial. Só não estão presentes e não têm seus nomes nos aeroportos brasileiros.

• Dados obtidos de Robert Zwerdling | Fotos Arquivos Pessoais

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