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Medicina e Saúde

Por que o número de grávidas com HIV não para de crescer no Brasil?

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Os dados mais recentes desta epidemia apontam vários índices em queda, mas os diagnósticos em grávidas continuam a aumentar — o que médicos dizem não ser de todo uma má notícia

Os novos dados sobre a epidemia de HIV no Brasil trouxeram algumas boas notícias — e um dado preocupante.

Os casos de Aids, a síndrome causada por este vírus, estão caindo, assim como as mortes pela doença. O ano passado também foi o primeiro em que o número de novos casos de HIV notificados diminuiu ligeiramente, após uma década de aumentos.

Mas um índice foge desta tendência no mais recente Boletim Epidemiológico HIV/Aids, divulgado anualmente pelo Ministério da Saúde: em vez de cair, o número de grávidas diagnosticadas continua a aumentar.

Entre 2008 e 2018, o índice passou de 2,1 para 2,9 casos para cada mil nascidos vivos. Houve um aumento de 36% no total de casos notificados por ano neste período.

No entanto, o governo federal e médicos ouvidos pela BBC News Brasil dizem que este crescimento não é de todo uma má notícia.

Esaú João, coordenador do programa de prevenção materno-fetal de HIV do Hospital Federal dos Servidores do Estado (HSE), no Rio de Janeiro, explica que, desde 2010, passou a ser obrigatório o teste do vírus para gestantes no acompanhamento pré-natal, na primeira consulta e no último trimestre.

O infectologista afirma que isso contribuiu para aumentar o índice de grávidas diagnosticadas com HIV. “A partir daí, elas passam a se tratar e, com resultados positivos, têm outras gestações”, diz João.

Dados do governo sobre HIV e Aids apontam que vários índices em queda, mas número de gestantes com o vírus continua a crescer

Dados do governo sobre HIV e Aids apontam que vários índices em queda, mas número de gestantes com o vírus continua a crescer

A avaliação vai ao encontro a dados do Ministério da Saúde. O número de exames para HIV e sífilis aplicados pela Rede Cegonha, um programa nacional voltado para gestantes, aumentou em mais de nove vezes. Em 2012, foram realizados 369 mil testes no país. Neste ano, diz a pasta, já são mais de 3,5 milhões.

Rico Vasconcelos, infectologista da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), afirma que o aumento do índice de detecção do HIV em gestantes, como reflexo da ampliação do diagnóstico, é um passo importante para erradicar a chamada transmissão vertical do vírus, entre a mãe e o bebê.

“Estamos conseguindo encontrar essas mulheres, então, o crescimento desta taxa num primeiro momento é uma coisa boa. Se conseguirmos achar todas e fazer um pré-natal adequado, o esperado é que a transmissão vertical caia”, afirma Vasconcelos.

É o que vem ocorrendo, segundo dados do governo. Os casos de Aids entre crianças com menos de 5 anos, um dos índices usados para avaliar a frequência da transmissão vertical, diminuiu em quase pela metade desde 2010: passou de 3,9 pra 1,9 casos entre 100 mil habitantes.

Para evitar esse tipo de transmissão, a mãe precisa tomar medicamentos para reduzir a quantidade do vírus no organismo até esta carga ser considerada indetectável. Também é preciso tratar outras infecções, como sífilis, que favorecem a transmissão do vírus. Além disso, o bebê deve nascer por cesariana e não ser amamentado.

O ideal é a mulher engravidar já usando os medicamentos. Quanto mais precocemente isso for feito, maior é a chance de transmissão chegar quase a zero.

É importante fazer o teste também no fim da gestação, porque, como apontam médicos ouvidos pela reportagem, há casos em que uma mulher pega o vírus durante a gravidez, ao se relacionar com um novo parceiro.

Mesmo se o diagnóstico ocorrer próximo do parto, os médicos ainda podem tomar medidas para reduzir o risco da transmissão vertical.

Mais mulheres engravidam já sabendo que têm o vírus

Os dados do Ministério da Saúde também apontam ter ocorrido uma mudança de comportamento entre gestantes com HIV. O índice de mulheres que engravidam sabendo que têm o vírus superou a taxa de mulheres que são diagnosticadas no pré-natal.

Em 2010, 36% sabiam que tinham o vírus, enquanto 54% conheceram seu status na gravidez. A proporção se inverteu desde então: em 2018, 61% engravidaram cientes do HIV e 31% foram diagnosticadas no pré-natal.

Gerson Pereira, diretor do departamento de doenças de condições crônicas e infecções sexualmente transmissíveis do Ministério da Saúde, atribui isso a uma melhoria do tratamento, o que fez mulheres perceberem que podem engravidar sem transmitir o vírus ao bebê nem ao parceiro.

Maior oferta do teste de HIV é um fator que levou ao aumento do número de casos registrados

Maior oferta do teste de HIV é um fator que levou ao aumento do número de casos registrados

“Graças aos medicamentos de hoje, ter HIV passou a ser considerado doença crônica, como diabetes. As grávidas entendem que, mesmo com o vírus, não vão morrer e poderão ver seus filhos crescerem”, afirma Pereira.

Vasconcelos, da USP, diz que essa percepção entre mulheres com HIV pode ter um impacto sobre a mudança detectada pelo governo, mas prefere ter cautela.

“Sem dúvida, quando é divulgado que é possível ter filhos, aumenta o número de gestantes com HIV que engravidam de forma planejada. Mas não sei se é o fator principal, porque isso não é muito divulgado. A gente não vê no intervalo da novela chamadas do tipo: ‘Você, mulher com HIV, sabe que pode ter filho?’.”

Eduardo Sprinz, chefe do serviço de infectologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, afirma que a leitura dos dados pelo Ministério da Saúde é apenas uma das possíveis e que vê em seu cotidiano a influência de outros fatores.

“Também podemos interpretar como um sinal de que muitas mulheres não sabem se proteger. Muitas vezes, elas simplesmente sabem que têm HIV, não se tratam e continuam a ter filhos, porque engravidam sem planejar ou querem dar um filho a um novo parceiro”, afirma Sprinz.

Quem são e onde estão as gestantes com HIV

Mas quem são essas mulheres? Os dados oficiais mostram que a maioria das gestantes diagnosticadas com HIV desde o ano 2000 eram pretas ou pardas (61,7%), tinham entre 20 e 29 anos (53,9%) e eram analfabetas ou tinham até 8ª série incompleta (42,4%).

“A epidemia no Brasil evoluiu muito para o lado da população desfavorecida economicamente e que muitas vezes vive à margem da sociedade. Estas mulheres sofrem todo tipo de violência, o que faz com que a questão do HIV não seja tão importante na vida delas”, diz João, do HSE.

As condições socioeconômicas impactam diretamente o risco de pegar HIV. “Doenças transmissíveis em geral são doenças relacionadas à pobreza, porque estas pessoas têm menos acesso a medidas de prevenção. Se têm baixa escolaridade, também têm menos acesso a informações sobre como se prevenir”, afirma Pereira, do Ministério da Saúde.

Maioria das grávidas com HIV eram pretas ou pardas, tinham entre 20 e 29 anos e eram analfabetas ou tinham até 8ª série incompleta

Maioria das grávidas com HIV eram pretas ou pardas, tinham entre 20 e 29 anos e eram analfabetas ou tinham até 8ª série incompleta

O boletim do governo federal mostra que a maioria das gestantes com HIV viviam nas regiões Sudeste (38,1%) e Sul (30%). No entanto, os maiores aumentos de novos casos nos últimos dez anos ocorreram nas regiões Norte (87,5%) e Nordeste (118,1%).

Para médicos ouvidos pela BBC News Brasil, o crescimento expressivo nestas regiões reforça a explicação de que o aumento de casos no país é resultado da ampliação de exames.

“Estas duas regiões eram onde havia os maiores índices de subnotificação de HIV, e estão tentando resolver esse problema com a oferta de testes rápidos e capacitação de profissionais. Esse crescimento é positivo, porque, se não fossem diagnosticadas, estas mulheres morreriam de Aids, mas uma hora isso tem que começar a cair”, diz Vasconcelos, da USP.

Manoella Alves, infectologista do Centro de Educação e Pesquisa em Saúde Anita Garibaldi, que é referência para atendimento de gestantes com HIV no Rio Grande do Norte, diz que o aumento do diagnóstico se deve à ampliação da testagem, mas ressalta que é preciso fazer uma avaliação cuidadosa.

“Números de HIV são complexos de entender, porque são influenciados por escolaridade, classe social, gênero. O que houve foi o aumento do número de mulheres diagnosticadas nestas regiões e, infelizmente, isso aconteceu na gravidez, já que é neste momento que o serviço de saúde chega de forma mais ativa a elas”, diz Alves.

A infectologista ressalta que as regiões Sul e Sudeste ainda apresentam as maiores taxas de HIV entre gestantes. “É preciso analisar se há no Norte e Nordeste uma cobertura de exames de HIV similar ao de Sul e Sudeste.”

RS tem o maior índice do país

Segundo o boletim anual, o Rio Grande do Sul é o Estado com o maior índice de grávidas com HIV desde 2001.

No ano passado, foram 9,2 novos casos a cada mil nascidos vivos, três vezes a média nacional.

A taxa está caindo desde 2015, quando atingiu o pico de 9,5 casos entre mil nascidos vivos, mas ainda é de longe a mais alta do país: em segundo lugar, Santa Catarina teve 6,1 casos a cada mil nascidos vivos.

O quadro é ainda mais grave em Porto Alegre, onde houve 20,2 casos entre mil nascidos vivos em 2018, a maior taxsa entre todas as capitais brasileiras.

Historicamente, a epidemia de HIV é de forma geral mais grave no Rio Grande do Sul em comparação com a maioria dos outros Estados brasileiros.

O Rio Grande do Sul tem o terceiro maior número acumulado de diagnósticos de HIV notificados no país desde o ano 2000. Também foi o terceiro com a maior taxa de detecção de Aids em 2018, com 27,2 casos por 100 mil habitantes, apesar do índice ter caído 39,3% em dez anos.

Houve uma queda semelhante, de 34,5%, nas mortes por Aids, neste período, mas, com 7,8 óbitos por 100 mil habitantes em 2018, o Rio Grande do Sul supera todos os outros Estados neste aspecto.

Os fatores por trás da epidemia gaúcha

Não há um consenso sobre o motivo de taxas tão elevadas. Especialistas indicam que alguns fatores contribuem simultaneamente para isso.

Pereira, do Ministério da Saúde, diz que a epidemia de HIV no Rio Grande do Sul — e na região Sul como um todo — apresenta características diferentes de outras partes do país.

Condições socioeconômicas impactam diretamente o risco de pegar HIV

Condições socioeconômicas impactam diretamente o risco de pegar HIV

A epidemia no Brasil é classificada como concentrada, porque há grupos sociais considerados mais vulneráveis, como homens que fazem sexo com homens, travestis, transexuais, profissionais do sexo e usuários de drogas. Entre eles, há uma prevalência do vírus acima da média nacional, de 0,5%.

Estudos com gestantes e parturientes, usados para avaliar a prevalência do vírus em uma população, indicam uma taxa de 2% no Rio Grande do Sul, onde a epidemia tende a ser generalizada.

“No Rio Grande do Sul, é uma epidemia mais heterossexual. Também foi mais comum no Estado o uso de drogas injetáveis, que funciona como uma ponte para o vírus para a população em geral”, afirma Pereira.

Sprinz, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, diz que tem sido observada no Estado uma frequência maior do HIV do subtipo C, sua variante mais comum no mundo e que geralmente é transmitida em relações heterossexuais.

“Isso indica que uma parte população que não é normalmente considerada vulnerável corre um risco maior do que é esperado. Mas, por não se achar vulnerável, nem pensa em HIV e não se protege, o que leva a mais casos”, afirma Sprinz.

O infectologista Ronaldo Hallal, da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, diz que falhas nas políticas de saúde pública também contribuíram para agravar a epidemia gaúcha.

“A cobertura das unidades de atenção primária é mais baixa em Porto Alegre do que em outros centros urbanos e, com isso, há menos acesso à prevenção e ao diagnóstico. E o Rio Grande do Sul não aplicou recursos destinados pelo governo federal para o combate ao HIV tão rapidamente quanto outros Estados”, afirma Hallal.

No entanto, diz o infectologista, este é apenas um de vários aspectos. “A situação que temos hoje é fruto de uma soma de fatores, e não dá para atribuir a só um deles. O que está claro é que a epidemia tem características diferentes aqui e demanda respostas diferentes do que no restante do país.”

A Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul diz estar ciente do problema e afirma que vem tomando medidas, como oferecer a testagem rápida de HIV em todos os municípios e ampliar de 83% para 99,5% a disponibilidade do exame em maternidades nos últimos cinco anos.

“Também estamos trabalhando para descobrir as razões que levam a estes índices. Temos algumas hipóteses, e pesquisas estão sendo feitas”, afirma Ana Lúcia Baggio, coordenadora da política de infecções sexualmente transmissíveis/Aids da secretaria.

“Esses dados nos preocupam, mas o mais importante é que estamos fazendo ações que estão dando resultado. Nossas taxas vêm caindo lentamente, mas estão caindo.”

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Vai ter festa? Secretário fala sobre impacto da Ômicron no ES

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Nésio explicou que medidas de restrição poderão ser adotadas caso o escape vacinal seja comprovado e haja baixa adesão ao esquema vacinal completo entre os capixabas

Nesta segunda-feira, dia 29, o secretário estadual de saúde, Nésio Fernandes, se manifestou em uma rede social sobre o possível impacto da nova variante do coronavírus, Ômicron, no Espírito Santo.

Em sua publicação, começou destacando que o Estado tem, nesse momento da pandemia, uma queda de casos, óbitos e internações por covid-19.

Nésio afirmou que, por isso, será possível “abrir uma agenda de ampliação das atividades econômicas e sociais”. Disse ainda que, neste cenário, “podemos ter festas de fim de ano e verão”.

Segundo o secretário, a nova variante deverá se comportar de forma diferente em cada um dos países, e que esse comportamento será definido por dois fatores principais:

1- Exposição comunitária anterior à doença
2- Avanço da vacinação com duas e três doses

E reforçou: “Tudo vai depender principalmente do escape vacinal, se houver”. Isso por que os especialistas ainda não conseguiram determinar se as vacinas em uso atualmente são ou não “suficientes” para proteger também contra a nova variante.

Impactos da nova variante s´´o serão reconhecidos nas próximas semanas, diz secretário

Ainda em sua rede social, Nésio Fernandes explicou que os verdadeiros impactos da nova variante só serão reconhecidos nas próximas semanas. Mas reforçou que já temos elementos suficientes para começar a agir.

“Precisamos entender que já temos elementos para diversas decisões. A primeira e principal é: vacinar todos os povos do mundo com esquemas completos. Todas as vacinas recolhecidas pela @pahowho são seguras e eficazes”, disse.

Vacinas, testes e máscaras são fundamentais para conter nova variante

O secretário estadual de saúde também pontuou que esta nova variante se comporta de forma diferente das que já conhecíamos. E destacou: “Vacinar, vacinar, vacinar, testar, testar, testar, manter o uso de máscaras por mais tempo”.

Nésio disse também que novos medicamentos contra a covid-19 deverão ser incorporados ao tratamento da doença. “Já temos vários medicamentos aprovados por agências reguladoras, seguros e eficazes”, afirmou.

Estratégias para conter novas variantes já são de conhecimento de todos, diz secretário

Há quase dois anos imersos na pandemia do coronavírus, Nésio Fernandes reforçou que as medidas necessárias para conter as novas variantes já são conhecidas por todos.

“Do ponto de vista sanitário, sabemos o que deve ser feito se mantidas as características atuais ou se novas características surgirem. Como gestores públicos partilhamos com os atores econômicos a preocupação com os impactos da nova variante em morbimortalidade e na economia”, disse.

Nésio destacou que além da preocupação, seja compartilhada também a mobilização pela vacinação plena da população, já que essa é a “única medida capaz de proteger a vida e a economia”.

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Ansiedade e depressão: Vitamina C pode ajudar no tratamento

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Estudos apontam para um papel protetor deste micronutriente nas células do sistema nervoso central

Normalmente lembrada em crises de gripe e resfriado, a vitamina C pode ser uma importante aliada no tratamento de depressão e ansiedade. Estudos publicados nas últimas duas décadas apontam benefícios da suplementação de vitamina C (ácido ascórbico) durante o tratamento destes transtornos psiquiátricos.

É importante lembrar, em primeiro lugar, que ansiedade e depressão são doenças multifatoriais, e suas origens não estão associadas à falta de nenhum nutriente. Além disso, precisam de acompanhamento médico, tanto para diagnóstico quanto para tratamento.

Portanto, o papel do ácido ascórbico nestes transtornos é descrito apenas como uma alternativa terapêutica — associada aos medicamentos convencionais — a ser considerada por médicos em conversa com seus pacientes.

Redução do estresse

Pesquisadores já identificaram um componente importante do ácido ascórbico na redução dos níveis de cortisol, o “hormônio do estresse”, no organismo.

O estresse é uma resposta natural do nosso corpo a fatores ambientais compreendidos como ameaça e perigo. 

Ele causa aceleração dos batimentos cardíacos, irritabilidade, alterações do sono, do apetite e gastrointestinais, entre outras. Costuma passar naturalmente por estar associado a momentos específicos.

Ansiedade

Já a ansiedade é um estado de estresse quase que permanente — inclusive com sintomas semelhantes — mesmo que não haja fatores desencadeadores. 

O indivíduo que sofre deste transtorno costuma ter preocupação excessiva, além de batimentos cardíacos acelerados, tonturas, dor de cabeça, etc.

Depressão

Em relação à depressão, é comum que pacientes depressivos experimentem um período de estresse crônico.

Os efeitos dos altos níveis de cortisol no organismo

Seja qual for o quadro psiquiátrico, altos níveis de cortisol por longos períodos causam alguns danos no organismo, explica o médico psiquiatra Guido Boabaid May, do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein.

“O cortisol é essencial para o nosso funcionamento. Ele aumenta a nossa resistência à dor, interfere positivamente na metabolização de gordura, carboidrato e proteína. Mas quando é produzido em excesso, em situações de estresse, aumenta a chance de termos depressão, ansiedade, facilita o ganho de peso, doenças cardiovasculares, diminui nossas funções cognitivas, como concentração e raciocínio, aumenta a fadiga e a irritabilidade, diminui libido, piora a qualidade de sono, pode alterar o ciclo menstrual”, explicou. 

A depressão, acrescenta o médico, envolve outras questões, mas também o aumento dos níveis de cortisol por um tempo prolongado.

“Um estresse contínuo, além do aumento de cortisol, pode afetar a modulação química do cérebro e, aí sim, desencadear sintomas depressivos, que são mais intensos e contínuos. A depressão é causada primeiramente por uma alteração na modulação neuroquímica do cérebro — dos neurotransmissores serotonina, dopamina, noradrenalina, em associação com o aumento da produção de cortisol”, finalizou.

Entenda o papel da Vitamina C no tratamento de depressão e ansiedade

Além de reduzir os níveis de cortisol, a vitamina C tem outras funções, acrescenta o médico nutrólogo Daniel Magnoni, presidente do Instituto de Metabolismo e Nutrição (Imen).

“A vitamina C estabiliza funções cognitivas, então, estabiliza irritabilidade celular de uma forma geral, arritmia cardíaca, contração muscular espontânea e também estaria relacionada de uma certa forma com a ‘irritabilidade’ do sistema nervoso central”, disse

Os níveis de ácido ascórbico são de duas a quatro vezes maiores no líquido cefalorraquidiano do que no plasma sanguíneo, o que sugere sua alta concentração no sistema nervoso central.

Foi partindo da premissa de que a vitamina C é uma aliada do sistema nervoso central que cientistas obtiveram resultados animadores em estudos.

Falta de Vitamina C está ligada ao estresse

Em um trabalho científico divulgado no ano passado, pesquisadores da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) destacam que “a deficiência de vitamina C está amplamente associada a doenças relacionadas ao estresse”.

“Embora a eficácia dessa vitamina nos transtornos do espectro da ansiedade seja menos estabelecida, vários estudos mostraram que a suplementação de ácido ascórbico produz efeito antidepressivo e melhora o humor“, afirmam artigo publicado no Jornal de Bioquímica Nutricional.

Em 2014, pesquisadores da Líbia investigaram o efeito combinado da vitamina C com antidepressivos em indivíduos que já estavam em tratamento.

Apesar de ter sido analisado um grupo pequeno, de 22 pacientes, eles observaram melhora significativa entre aqueles que haviam tomado a vitamina C, em comparação com os que tomaram apenas o antidepressivo.

Um grupo de cientistas iranianos constatou melhoras nos escores de depressão em trabalhadores de uma refinaria de petróleo que tomaram 250 mg de vitamina C duas vezes ao dia, por 60 dias, na comparação com os que tomaram placebo. Os resultados foram publicados no Journal of Clinical Biochemistry and Nutrition em 2013.

Em outro trabalho científico, pesquisadores da McGill University, em Montreal, no Canadá, analisaram 52 homens e mulheres hospitalizados, com idade média de 64 anos, que receberam 500 mg de vitamina C duas vezes ao dia, por oito dias.

Eles concluíram que a suplementação reduziu em 71% nos sintomas de humor e 51% os de estresse psicológico, em artigo publicado em 2014 no The American Journal of Clinical Nutrition.

“O efeito adjuvante do ácido ascórbico em combinação com antidepressivos tem grande potencial para ser incluído nos protocolos de manejo da depressão clínica, especialmente para pacientes refratários”, acrescentam os pesquisadores da UFSC.

Ansiedade

Há menos estudos envolvendo a relação da vitamina C na diminuição da ansiedade do que os que existem sobre a depressão. Mesmo assim, um trabalho conduzido por pesquisadores brasileiros em 2015, com 42 estudantes do ensino médio, mostrou benefícios.

Foram comparados dois grupos: um recebeu 500 mg de vitamina C por dia e outros tomou placebo.

Após 14 dias da suplementação, eles avaliaram o nível de ansiedade dos jovens utilizando o Inventário de Ansiedade de Beck.

“Os resultados mostraram que a vitamina C reduziu os níveis de ansiedade e levou a uma concentração mais elevada de vitamina C no plasma em comparação com o placebo. As frequências cardíacas médias também foram significativamente diferentes entre o grupo de vitamina C e o grupo de controle com placebo”, ressaltam os autores.

Veja quais são os riscos da deficiência de Vitamina C

A ingestão de 100 mg a 200 mg por dia de vitamina C (cerca de cinco porções do reino vegetal) é suficiente para manter as concentrações sanguíneas em um estado de saturação adequado (50 a 75 µmol/L).

Abaixo de 23 µmol/L, a pessoa já pode apresentar sinais de insuficiência de vitamina C, que incluem:

– sangramentos nas gengivas

– sangramento na conjuntiva ocular

– manchas roxas pelo corpo

– fadiga

– letargia 

– alterações de humor, por exemplo, irritabilidade e depressão.

Daniel Magnoni observa que não é da noite para o dia que esses níveis caem, mas sim após alguns meses sem que o indivíduo consuma as quantidades ideais de ácido ascórbico.

Segundo o nutrólogo, “é muito rara a deficiência de vitamina C”

“Se você comer três frutas por dia, já está resolvido. Se você suplementar, a dose varia de 30 mg a 100 mg por dia, é muito pouco. Quando existe necessidade, pode suplementar, só não pode suplementar em excesso.”

O psiquiatra Guido May pondera que a é preciso primeiro identificar se o paciente tem deficiência de vitamina C ou se é uma pessoa com níveis normais do micronutriente, mas que poderia ter algum benefício com um aumento da dose diária.

“Parece que já existe algum consenso, com alguma evidência, que sugere que a vitamina C acaba sendo neuroprotetiva, protegendo a saúde dos neurônios e do cérebro. Doses adequadas de vitamina C acabam aumentando a disposição, a vitalidade, a função cognitiva. Isso acaba provavelmente contribuindo para aumento de escores de melhora, principalmente, para pacientes de depressão.”

Suplementação de Vitamina C deve ser feita somente com recomendação médica

Todavia, por não ser um tema em que há diretrizes, a suplementação da vitamina C é uma decisão que deve ser tomada sempre entre paciente e médico. O excesso de vitaminas também pode ser prejudicial, alerta o psiquiatra.

“Vale a pena ter uma dieta rica e, se não for o caso, faça uma suplementação dentro dos níveis recomendados de segurança. Caso contrário, sobrecarrega os rins, o fígado e o bolso também.”

A vitamina C é obtida naturalmente pelo consumo regular de frutas frescas, como:

– acerola

– laranja

– caju

– kiwi

– limão

– tangerina

– manga

– morango

– abacaxi

– melancia

Também é possível encontrá-la em legumes cozidos ou refogados, como couve-flor, batata doce e repolho roxo.

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