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São Mateus

Quando dei uma “Carteirada” no STF

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Por Maciel de Aguiar

Estava escrevendo o livro sobre o arquiteto Oscar Niemeyer, considerado um dos maiores gênios da arquitetura mundial, que completaria 100 anos, e, ao fazer uma ”visita de inspiração” ao prédio do Supremo Tribunal Federal/STF, em Brasília, a recepcionista pediu-me os documentos.

Porém, como havia esquecido a Identidade no hotel, resolvi apresentar a Carteira-Diploma de Profissão, emitida pela Escola Remington de Datilografia — assinada por Dona Maria Auxiliadora do Amaral, em 10 de dezembro de 1968, na Cidade de São Mateus, Norte do Estado do Espírito Santo — que, dias antes, havia encontrado nos escombros de minhas recordações sociológicas, e desconfio que ela ficou, propositalmente, em minha bolsa para esta finalidade inusitada.

Além das atendentes e dos demais na fila de identificação, acho que ninguém sabia sobre a utilidade de uma Carteira-Diploma de Profissão, muito menos estudou em uma Escola Remington de Datilografia — como a que havia sido responsável pela formação de centenas de mateenses com o domínio da técnica de escrever à máquina e com ”100 toques por minuto” — e muito menos conhecia as histórias de lutas da abnegada professora-diretora daquela valorosa instituição.

Fazia décadas, o Brasil tinha feito uma equivocada opção pelo desprezo da arte de falar corretamente o nosso idioma, além de escrever sem o agredir e, pior, havia descartado o hábito da leitura, consequentemente, os cursos de datilografia foram perdendo a utilidade — embora tivessem feito a qualificação de milhares de bons cidadãos para o mercado de trabalho —, quando lembrei do que Dona Maria Auxiliadora do Amaral me confidenciou no fim do curso: ”Este diploma será o mais importante de sua vida!” Mais tarde, descobri que ela falava o mesmo para todos os formandos!

Naquele instante, a atendente já estava com um misto de incredulidade no documento e desconfiança da sanidade mental do seu portador e disse que não poderia “classificar um visitante sem o número da Carteira de Identidade, sem Título de Eleitor e sem CPF”, ainda pediu a CNH e até uma ”carteira de classe”, pois ela convivia com os nobres doutores da Suprema Corte — advogados, juízes, promotores, desembargadores e ministros —, e estes exibiam com indisfarçável ar de ”superioridade de casta” as suas prestigiadas carteiras da Ordem dos Advogados do Brasil/OAB.

Como eu não tinha nenhum dos documentos exigidos, ao menos naquele momento, tentei dar uma, digamos, ”carteirada” na guardiã do Supremo Tribunal Federal, justificando que a Carteira-Diploma de Profissão comprovava a existência de um cidadão brasileiro que, ao menos em tese, sabia escrever à máquina, era um bom usuário do idioma e mantinha o hábito da leitura, mas a investida não deu certo e a recepcionista me olhou de soslaio, ao tempo em que perguntava à outra atendente: ”Para que serve uma Carteira-Diploma de Profissão da Escola Remington de Datilografia?”

Com a resposta negativa — como se um Brasil que não mais existia tentasse se apresentar a um país sem memória, sem o hábito da leitura e sem saber fazer o uso correto do próprio idioma — a funcionária exigia o número de um documento para provar a existência de um cidadão, e, agora, falava em tom mais incisivo que “não podia entrar no STF, nem mesmo para visitar o prédio”, ao tempo em que os demais da fila me olhavam como se eu tivesse surgido da imaginária Macondo, de ”Cem Anos de Solidão”, do genial Gabriel Garcia Márquez.

Assim, fui barrado no Supremo Tribunal Federal da República Federativa do Brasil por ser um brasileiro ”sem classificação” e ou ”um brasileiro do passado” que dizia saber falar e escrever corretamente o próprio idioma e portava uma estranha Carteira-Diploma de um obsoleto curso de datilografia, com o qual havia se esforçado para conseguir um emprego de jornalista, além de um escritor que jamais se interessou por outra profissão ou diplomas.

Como os meus argumentos eram em vão — insisti na “carteirada” para tentar convencer a servidora de que a arte de escrever era fundamental para o Brasil e representava a mais veemente defesa de nossa civilização —, quando senti uma mão pesada em meu ombro e uma voz em tom ameaçador que me “convidava” para sair da recepção, ao tempo em que indicava a porta principal do prédio projetado pelo “gênio da arquitetura”, a quem, naquele momento, dedicava o meu labor, e, por certo, não imaginava que a sua obra monumental também tivesse aquela serventia.

Porém, quando estava do limiar do popular “olho da rua” — já tomado por um misto de desilusão e decepção com um país dominado pelos incautos —, observei que um cidadão negro, de estatura mediana, descia de um carro oficial, elegantemente trajado, escolhido como novo ministro do STF, e me aventurei em lhe indagar, agora motivado pela resistência à alegação de que o diploma que havia conquistado aos 16 anos de idade não mais servia para o Brasil de então e que a profissão que tinha escolhido perdera a importância diante de tantos iletrados, e disse-lhe:

Senhor ministro, sou formado em datilografia, com a qual escrevi dezenas de livros sobre alguns personagens que fizeram a História do Brasil, inclusive os heróis negros quilombolas que enfrentaram o sistema escravocrata e foram ”esquecidos” pela historiografia oficial, e estou escrevendo um livro sobre o arquiteto Oscar Niemeyer, mas não posso entrar no STF com uma Carteira-Diploma da Escola Remington de Datilografia, que representa para a profissão que escolhi o mesmo que a OAB significa para os advogados!

O ministro — depois fui saber que se chamava Joaquim Barbosa e, por certo, também havia passado por semelhante formação datilográfica — me olhou com indisfarçável generosidade, possivelmente a indagar como alguém ainda portava uma Carteira-Diploma de Profissão, emitida por uma Escola Remington de Datilografia e acreditava na sublime função da arte de escrever em um país que havia perdido o hábito da leitura e era governado por tantos semialfabetizados?

O ministro, gentilmente, se aproximou, pediu-me para lhe mostrar a Carteira-Diploma e, quando lhe entreguei o documento quase cinqüentenário — que há pouco havia sido desqualificado, desconhecido e desprezado, mesmo contendo as informações do portador em seu interior —, ele o segurou com as duas mãos como se fosse um Vade Mecum e disse:

”Sem o Curso de Datilografia eu não conseguiria o meu primeiro emprego, não seria advogado, nem ministro e muito menos teria escrito as teses de mestrado e doutorado, portanto, meu nobre escritor, tenho a honra de convidá-lo para entrar no STF”, e me levou até às cadeiras reservadas aos advogados, promotores, juízes e desembargadores — que tinham acesso à Suprema Corte do Brasil e, muitas vezes, sem ao menos se identificar — e, ao se afastar, afirmou: “A arte de escrever com pleno conhecimento do idioma nacional é a atividade intelectual mais importante de uma Nação!”

Então, aliviado por ser barrado na Suprema Corte, achei, finalmente, que tinha dado uma “carteirada” no STF, obviamente que com a ajuda de um justo, digno e bom cidadão brasileiro — que, ao exercer seu cargo, restaurou a crença em nossa civilização e nos representou condignamente em um dos mais importantes poderes do país, acreditando na importância da Justiça e no conhecimento do nosso idioma —, e me sentei na primeira fila das confortáveis cadeiras do Supremo Tribunal Federal, entre os doutos da República Federativa do Brasil, onde fiquei feito um princês!

Hoje, quando me perguntam qual a minha formação acadêmica, não tenho dúvida: sou formado, graduado, pós-graduado, mestrado, doutorado e pós-doutorado em datilografia pela Remington School of Typing.

E, para comprovar, ainda digo que, nos últimos 50 anos, exerço a mesma profissão usando uma Olivetti Lettera 32, com a qual mantenho laços sentimentais de absoluta fidelidade e sonhamos, acreditamos, copulamos, gestamos, parimos e escrevemos 142 livros que andam pelo mundo com suas próprias pernas como nossos saudosos filhos desgarrados.

Desde então, o Diploma da Escola Remington de Datilografia ocupa um lugar de destaque em minhas memórias afetivas — além das saudades sociológicas de um Brasil devastado pela incúria e dominado por gestores públicos e tantos outros detentores de poder que não sabem fazer uso do próprio idioma —, e representa mais do que um papel afixado na parede de minha sala, pois mantém a mítica afirmação de Dona Maria Auxiliadora do Amaral como “o diploma mais importante de minha vida”!

Maciel de Aguiar
Escritor das barrancas do lendário rio que o gentio chamou de Kiri-Kerê.

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São Mateus

Câmara mateense analisa orçamento de R$ 348,5 milhões para 2022

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PROPOSTA ORÇAMENTÁRIA ENVIADA PELO PREFEITO EM EXERCÍCIO FOI LIDA
EM PLENÁRIO E ENVIADA PARA ANÁLISE DAS COMISSÕES PERMANENTES

São Mateus – Já está em tramitação o Projeto de Lei 027/2021 (Lei Orçamentária Anual – LOA 2022), que estima a receita e fixa a despesa dos poderes Executivo (incluindo o Serviço Autônomo de Água e Esgoto – Saae) e Legislativo no exercício financeiro de 2022. Apresentada pelo prefeito em exercício Ailton Caffeu, a proposta orçamentária estima receitas totais em R$ 348.473.000,00. Lida na sessão ordinária de terça-feira (19/10), foi encaminhada para análise e discussão nas comissões legislativas.

O prefeito em exercício pede apreciação e discussão da proposta em caráter de urgência urgentíssima, contudo ainda não há data para votação em plenário. Do total previsto, R$ 337.473.000,00 são destinados ao Poder Executivo, e R$ 11.000.000,00 ao Legislativo.

No desdobramento dos órgãos da Prefeitura, a maior fatia está direcionada ao Fundo Municipal de Educação, que inclui a secretaria homônima, com R$ 126,4 milhões. Para a Secretaria Municipal de Obras, Infraestrutura e Transporte estão programados R$ 56.012.000,00. No Fundo Municipal de Saúde, com a secretaria de mesmo nome, a estimativa é de R$ 51.850.000,00. A Secretaria de Agricultura e Abastecimento tem previsão de R$ 16 milhões.

A LOA em debate prevê R$ 1.255.000,00 para a Secretaria de Cultura. Na Secretaria de Esporte, Lazer e Juventude, o orçamento para 2022 é de R$ 4.507.000,00, enquanto a Secretaria de Assistência Social tem previsão de R$ 10.864.000,00. A Secretaria de Defesa Social (que envolve a Guarda Municipal e a Defesa Civil) tem estimativa de empregar R$ 10.684.000,00. Para a Secretaria de Turismo estão alocados R$ 4.283.000,00.

A proposta orçamentária prevê o montante de R$ 15 milhões para o Saae. Para o Regime Próprio de Previdência estão previstos R$ 6.520.000,00. O orçamento enviado estabelece ainda R$ 3,3 milhões como reserva de contingência.

O projeto apresentado pelo Executivo prevê a abertura de créditos suplementares, por decreto, até o limite de 50% do total da despesa fixada.

PPA E LDO
Na sessão legislativa em que foi lida a proposta orçamentária, o presidente da Câmara Municipal, vereador Paulo Fundão, adiantou que pretende colocar em votação, se liberadas pelas comissões permanentes, as propostas do Executivo que estabelecem o Plano Plurianual (PPA 2022-2025) e a Lei de Diretrizes Orçamentárias para o exercício 2022 (LDO), que precedem a votação da LOA 2022.

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São Mateus

José Roberto: “Esta Câmara é um templo da democracia e deve ser defendida por todos”

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São Mateus – Ex-secretário municipal de Educação e coordenador da Área de Saúde I e Licenciaturas da Faculdade Vale do Cricaré (FVC), o professor e pesquisador José Roberto Gonçalves de Abreu fez um discurso eloquente em defesa da democracia e da representatividade popular na Câmara de São Mateus. “Esta Casa é um templo da democracia, e deve ser defendida de forma densa por todos nós”, frisou, em pronunciamento na tribuna popular.

Fisioterapeuta do Hospital Meridional, José Roberto acompanhou a presidente do Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional da 15ª Região – Espírito Santo (Crefito15), Eunice da Encarnação da Silva e Souza, em participação especial na homenagem ao Dia do Fisioterapeuta e do Terapeuta Ocupacional, a convite do vereador Cristiano Balanga.

“Se tem um poder que realmente emana do povo, instituído pelo povo, é o representado pela Câmara de Vereadores”, disse José Roberto, que é também presidente do Comitê de Ética da FVC e membro da Comissão de Educação do Crefito15. Ele salientou que o Legislativo Municipal “é o poder que sente as dores da comunidade, e que muitas vezes é injustiçado”.

José Roberto citou a representatividade de mais de 130 mil mateenses presente na Câmara de São Mateus. “Vocês são excelências porque o povo os colocou aí. A gente precisa reconhecer isso e defender a democracia por meio da Câmara de Vereadores. Sobre os vossos ombros repousam as demandas de toda a comunidade, as nossas esperanças” – acrescenta o pesquisador e professor, que é também orientador de Mestrado.

“Esta Câmara está a serviço da democracia. Que vocês, vereadores, tenham sempre sabedoria e força para enfrentar as adversidades. Que nós, como população, saibamos valorizar o bom político e saibamos defender a democracia a todo custo, pois foi uma conquista dolorosa dos nossos pais que enfrentaram a ditadura, enfrentaram dificuldades e que hoje nos permite usar este microfone e falar de forma aberta. E desta forma aberta eu manifesto aos senhores todo o meu respeito, todo o meu carinho e todo o meu desejo de sucesso nesta trajetória” – continua José Roberto.

GRATIDÃO
Ao sugerir a realização de uma sessão itinerante da Câmara Municipal na Faculdade Vale do Cricaré, José Roberto agradeceu a Comenda Honorífica André Orlandi Nardotto, que recebeu do Parlamento em sessão solene por ocasião do Dia de São Mateus. “É importante demais, para um município deste tamanho, demonstrar que é grandioso inclusive no reconhecimento aos trabalhos aqui realizados”.

Fundador da Clínica-Escola de Fisioterapia, orientou a sociedade mateense a encaminhar para a FVC pacientes com demandas relacionadas ao processo de reabilitação da covid-19. “Lá serão atendidos por alunos que estão aprendendo da forma mais nobre, reabilitando as pessoas”.

José Roberto ainda comunicou que executa o Projeto Fênix, já tendo concluído capítulos de um livro com resultados de uma pesquisa científica sobre reabilitação de pacientes pós-covid.

AULA MAGISTRAL
Ao agradecer José Roberto em nome da Câmara Municipal, o presidente Paulo Fundão disse que é muito prazeroso ver um discurso eloquente e objetivo na forma e no conteúdo. “Foi no ponto nodal do que penso como democracia. Muito obrigado por esta aula magistral de democracia”.

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