Tabuleiro pré-eleitoral ficou montado de um modo que ele ficou espremido entre os palanques de Ricardo e de Pazolini, sem espaço para se candidatar. Partido escolhido por ele ficou isolado na disputa estadual
O ex-governador Paulo Hartung (PSD) anunciou nesta segunda-feira (3), ao modo dele – sem o dizer com todas as letras –, que não será candidato a nenhum cargo eletivo neste ano, como informado em matéria da coluna de A Gazeta.
Em nota publicada em seu Instagram, expressando “pura gratidão” pelos gestos de estímulo para ele voltar a participar de eleições, Hartung anunciou a decisão de permanecer “na caminhada que vem mantendo nos últimos anos” e seguir com os seus passos de “incansável militância cidadã” por um Espírito Santo mais próspero.
É um “recuo do que nunca foi”. Para ser justo com o ex-governador, desde o início da maratona pré-eleitoral, ele jamais chegou a declarar que pretendia ser candidato em 2026. Da sua boca, não saíram tais palavras. Ele sempre poderá dizer que não deu um passo atrás, uma vez que nunca chegou a dar esse passo adiante; os demais é que deram um passo à frente, enquanto ele permaneceu parado no mesmo lugar.
Por outro lado, também é certo que Hartung chegou a nutrir a especulação de que poderia voltar a disputar um mandato (o que ele não faz desde o pleito de 2014).
Em entrevista a este colunista em maio de 2025, perguntei-lhe diretamente se ele descartava essa possibilidade. “Não descarto nem encarto (risos). Não vou dizer que dessa água não beberei. Ninguém pode falar isso. O jogo é jogado, lambari é pescado”, respondeu, ambiguamente, no clássico estilo hartunguiano.
A própria entrada dele no PSD, após mais de seis anos sem filiação partidário, ficando apto a disputar, alimentou as ditas especulações.
Nos últimos meses, conforme Hartung também passou a circular mais pelo Estado, em rodadas de palestras e colóquios com empresários, aliados dele, sob reserva, contaram-me que há muito tempo não viam o ex-governador tão animado a voltar a participar da política do Espírito Santo – como possível candidato ao Senado. Para governador, mais de uma vez, ele declarou apoio ao ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini (Republicanos).
O recall político de Hartung provou-se preservado. Na última rodada da série da Quaest, publicada em julho por A Gazeta, Hartung despontou com a segunda maior intenção estimulada de votos para o Senado (atrás somente de Casagrande).
Na pesquisa para governador, ele surgiu na liderança do cenário estimulado, tecnicamente empatado com Ricardo Ferraço (MDB) e Pazolini.
Para os interlocutores de Hartung ouvidos pela coluna entre maio e julho, não seria de surpreender se ele decidisse concorrer a um espaço no Senado, se o cavalo lhe passasse arreado – isto é, caso se estabelecessem as condições políticas e partidárias favoráveis para isso.
Muito bem. Agora, a dois dias do encerramento do período de convenções partidárias, podemos dizer que se deu precisamente o contrário: a conjuntura real estabelecida é a menos favorável possível para eventuais pretensões eleitorais de Hartung.
O tabuleiro pré-eleitoral ficou montado de um modo que o deixou espremido, sem espaço para se candidatar. E, com alguma ironia, o partido escolhido por ele acabou se tornando um complicador, à medida que ficou isolado na eleição estadual. Simplificadamente: hoje, estando no PSD, Hartung não teria condições práticas e políticas de se viabilizar.
Na atual configuração do jogo, o ex-governador acabou “prensado” entre os dois maiores palanques: no de Ricardo e Casagrande, adversários históricos de Hartung, ele é persona non grata; no de Pazolini, o agora principal aliado do candidato, o PL, não o deseja, enquanto o próprio ex-prefeito de Vitória, literalmente, jamais o abraçou.
O PSD estava fechado com o Republicanos de Pazolini. Renzo Vasconcelos, presidente estadual do partido de Hartung, chegou a declarar apoio ao ex-prefeito de Vitória. Mas, no último dia 18, o Republicanos fechou aliança com o PL e, cumprindo um protocolo exigido por Magno Malta, Pazolini declarou apoio a Flávio Bolsonaro para a Presidência e a Maguinha Malta para o Senado, como sua primeira candidata.
Com a chegada do PL à coligação de Pazolini, o PSD de Hartung ficou diminuído. Magno chegou à aliança cheio de vetos, dando um “chega pra lá” nas pretensões do PSD: nada de Meneguelli ao Senado, muito menos Hartung…
Pazolini precisou fazer uma escolha, e está muito claro para todos que escolheu priorizar o PL – parceria que, não obstante os riscos, tem mais a lhe oferecer. O PSD ficou em segundo plano.
Por isso, em movimento coordenado com Hartung e Gilberto Kassab, no dia 20 de julho, Renzo declarou que o PSD voltaria a conversar com outros pré-candidatos a governador. Dois dias depois, conversou com Ricardo, pedindo espaço para o PSD na chapa majoritária do governador.
A convenção estadual do PSD será na quarta-feira (5). A situação da sigla segue indefinida.
Resumindo a situação
Hartung abraçou Pazolini, que abraçou Magno e Maguinha, que não querem abraçar Hartung, que também não os abraçará.
Aliás, Hartung abraçou Pazolini, mas não quer abraçar Magno e Maguinha; pai e filha abraçaram Pazolini, mas não querem abraçar Hartung.
No esforço de agregar o máximo de forças ao seu redor, da centro-direita à extrema-direita, Pazolini ficou entre os anseios do PL e os do PSD… e priorizou o primeiro.
Assim sendo, se o PSD for mesmo absorvido pela coligação de Ricardo, Renzo pode até resolver sua vida, mas Hartung não seria mesmo candidato a nada.
Já se o PSD voltar atrás e continuar na frente partidária de Pazolini, Hartung não poderia mesmo ocupar a vaga de candidato ao Senado, numa coligação que já tem Maguinha Malta (leia-se Magno) como a primeira escolhida por Pazolini, com declaração de apoio e tudo, até porque a rejeição é mútua.
Já a segunda vaga, hoje, caminha para Evair de Melo (Republicanos).
Seria um constrangimento sem precedentes na história de alguém muito cioso de sua biografia e de seu legado político.
Além disso, agora Pazolini (o candidato apoiado por Hartung) também é o candidato de Flávio Bolsonaro (PL), apoiado pelo filho de Jair Bolsonaro (PL). Como governador, não foram poucas as críticas e ressalvas feitas por Hartung em relação às posições extremistas do pai de Flávio, então candidato à Presidência, em 2018.
Em 24 de julho, afirmamei aqui: “Com o tabuleiro arrumado como está, apesar de pontuar bem nas pesquisas, Hartung não será candidato a nada. Com o tabuleiro arrumado como está”.
Desde então, o tabuleiro não mudou. E Hartung, de fato, “não será candidato a nada”.
Chapa puro sangue do PSD?
Renzo Vasconcelos chegou a aventar a hipótese de lançamento de uma chapa majoritária pura (avulsa) do PSD, sem partidos coligados, com Meneguelli Hartung.
A ideia soa como um projeto kamikaze. Grande nacionalmente, a sigla é pequena no Estado.
Em 2024, o partido de Kassab foi o que mais elegeu prefeitos no país inteiro. Mas, no Espírito Santo, além de Renzo, só elegeu dois (em cidades pequenas).
O partido não tem um só deputado estadual. Tem pouquíssimos vereadores. Hartung já nem tão aliados espalhados pelo Espírito Santo para sustentar uma candidatura majoritária.
Dos aliados históricos dele, muitos hoje estão do lado de Ricardo, como Lelo Coimbra e César Colnago.
Indagado pela coluna, porém, Renzo deu uma interpretação diferente à nota de Hartung. Para ele, o ex-governador não está anunciando a decisão de não disputar nada.
“Ele deixa a entender que pode ser tudo ou nada. Está lá na nota que ele tanto pode ser candidato como pode não ser”, opinou o prefeito.
“O certo mesmo e o que posso te dizer é que o PSD é o fiel da balança nestas eleições estaduais. Vai decidir as coisas para um lado ou para o outro. E vamos trabalhar internamente, da melhor maneira, pelo crescimento do partido”, completou.
Mantida a invencibilidade
Com a decisão de não disputar, também é fato que Hartung mantém sua histórica invencibilidade nas urnas. Seu “aproveitamento perfeito é de oito vitórias em oito disputas eleitorais.
1982: deputado estadual
1986: deputado estadual
1990: deputado federal
1992: prefeito de Vitória
1998: senador
2002: governador
2006: governador
2014: governador
Sem Hartung nas urnas, quem cresce para governador?
A pesquisa Quaest indica que, sem Hartung nas urnas, quem mais cresce é Ricardo Ferraço na eleição para o Palácio Anchieta. Isso na primeira quinzena de julho, quando foi feita a última medição do instituto a pedido da Rede Gazeta.
Pazolini ainda não havia recebido o apoio do PL.
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FONTE: A Gazeta.