O Partido Comunista Chinês (PCCh) tem promovido mudanças em materiais religiosos como parte da política de “sinicização do cristianismo”, defendida pelo presidente Xi Jinping. A iniciativa busca alinhar práticas religiosas aos chamados “valores socialistas fundamentais” e prevê a produção de uma nova versão da Bíblia adaptada à visão ideológica do regime chinês.
Em 2018, meses após o anúncio do plano quinquenal para “sinicizar” o cristianismo, autoridades da província de Henan determinaram que uma igreja autorizada pelo Estado removesse o Primeiro Mandamento, “Não terás outros deuses além de mim”. A medida ocorreu dentro de uma série de ações voltadas à adaptação do conteúdo religioso à orientação política do PCCh.
Ainda em 2018, materiais de ensino religioso em Hong Kong passaram por alterações. Referências ao “Senhor”, os quatro primeiros mandamentos e o livro de Gênesis foram retirados de um currículo de escola dominical. No ano seguinte, igrejas ligadas ao Estado passaram a substituir os Dez Mandamentos por frases atribuídas a Xi Jinping, incluindo orientações como “use a cultura chinesa para permear a fé” e “siga o partido”.
Outra passagem alterada envolve João 8:3-11, trecho em que Jesus impede o apedrejamento de uma mulher acusada de adultério. Em um livro didático publicado pela Editora da Universidade de Ciência e Tecnologia Eletrônica da China, instituição estatal, a narrativa foi modificada. Na versão apresentada, Jesus afirma: “Eu também sou pecador. Mas se a lei só pudesse ser executada por homens sem mácula, a lei estaria morta”. Em seguida, a mulher é condenada à morte por apedrejamento.
O PCCh mantém oficialmente uma posição ateísta e historicamente restringiu práticas religiosas no país, especialmente durante o governo de Mao Zedong. Durante esse período, religiões foram proibidas e templos fechados em larga escala. O partido também vê o cristianismo com desconfiança devido às ligações históricas com o Ocidente e à associação da fé cristã com a Rebelião Taiping, conflito ocorrido na década de 1850 que provocou milhões de mortes na China.
Apesar das restrições, o número de cristãos no país cresceu nas últimas décadas, de acordo com o artigo publicado pelo Providence. Estimativas citadas por pesquisadores e organizações internacionais apontam que a população cristã chinesa pode ultrapassar 100 milhões de pessoas, embora não exista consenso sobre os números oficiais, já que muitos frequentam igrejas clandestinas para evitar fiscalização estatal.
Desde 2020, o governo chinês ampliou as medidas de controle sobre atividades religiosas. Entre as ações adotadas estão testes de lealdade para membros do clero, exigência de inclusão do pensamento de Xi Jinping em currículos de seminários e proibição da participação de menores de idade em atividades religiosas.
Sistemas de vigilância também foram instalados em igrejas em diversas regiões do país. Segundo relatos de grupos de direitos humanos, sermões passaram a ser monitorados e bancos de dados de fiéis foram criados pelas autoridades. Igrejas independentes que recusam adesão a organizações religiosas controladas pelo Estado têm sido alvo frequente de operações policiais, prisões coletivas e fechamento de templos. Em várias localidades, cruzes foram removidas e substituídas por retratos de Xi Jinping.
O debate sobre liberdade religiosa na China também ganhou espaço nos Estados Unidos. Setores ligados à defesa de direitos humanos defendem que o governo norte-americano amplie sanções contra autoridades chinesas envolvidas em restrições religiosas, incluindo ações relacionadas à reescrita de textos bíblicos, fiscalização de igrejas e exigências de fidelidade política ao PCCh.