A corrida está marcada para o dia 27 de junho. Organização da prova afirma que apenas maiores de 16 anos podem se inscrever
A Pride Run, primeira corrida voltada ao público LGBTQIAPN+ do Espírito Santo, virou alvo de polêmica na Câmara de Vereadores do município. O vereador Devacir Rabello (PL) apresentou um projeto de lei para proibir que crianças com menos de 12 anos possam participar da prova e que adolescentes de 12 a 17 anos só corram com a autorização dos pais.
Durante fala na tribuna da Câmara, Rabello afirmou não entender o porquê de o evento ter sido trazido para Vila Velha.
O vereador disse que já havia apresentado projetos que proíbem repasse de dinheiro público a paradas LGBTQIAPN+ na cidade e se referiu a eventos como este como “pandemônios” e “capeteiros”.
Já apresentei projeto de lei que proíbe destinação de recurso público para a Parada LGBTQIA+. Na ocasião, eu coloquei imagens no telão que mostravam o capeteiro, o pandemônio dessas paradas gays. Inclusive, fui acionado na Justiça por utilizar esses termos para denominar as paradas gays que ocorrem em todo o território nacional.
Devacir Rabello, vereador de Vila Velha
Ainda de acordo com o vereador, a intenção do projeto é evitar que crianças tenham contato com qualquer tipo de “erotização precoce”.
“A minha intenção é a proteção dos nossos pequeninos. Por anos à frente da Comissão de Educação, busquei blindar as nossas crianças desse tipo de conteúdo nocivo à nossa sociedade”, afirmou.
A assessoria do vereador afirmou que já há um projeto proibindo a participação em eventos, protocolado ainda no mandato anterior, mas que este novo projeto trata especificamente sobre a corrida.
A equipe de comunicação informou ainda que o “vereador abordou diversos temas a respeito dessa temática com o intuito de proteção às crianças e protegê-las da erotização precoce”.
Parecer altera projeto apresentado
O relator da Comissão de Justiça e Redação da Câmara, Ivan Carlini (Podemos), apresentou uma emenda substitutiva ao projeto.
A emenda preserva o objetivo central do texto, de proteção às crianças e adolescentes em eventos de rua, mas reforça que a aplicação da norma deve ocorrer de maneira universal, objetiva e não discriminatória, afastando a interpretação de “conteúdo inadequado”.
Segundo o relator, a legislação federal não permite a classificação indicativa de eventos esportivos, como o caso da Pride Run. Assim, a norma se aplica apenas a eventos classificáveis e evita a utilização de critérios subjetivos.
“A disciplina municipal não pode criar classificação indicativa própria, substituir os critérios federais, permitir juízos morais ou ideológicos pelo agente fiscalizador, nem estabelecer restrição baseada na temática, identidade visual, natureza social, cultural, religiosa, política ou identitária do evento”, diz o parecer.
A emenda também regula o acesso e participação de crianças em eventos de rua e as diretrizes de fiscalização e punição. O projeto de lei segue em tramitação com o novo texto.
Organização da corrida diz que idade mínima é 16 anos
Pelas redes sociais, a organização da Pride Run repudiou a posição do vereador. Na publicação, os organizadores afirmaram receber com preocupação o vídeo publicado por Devacir e pela apresentação do projeto de lei.
A organização afirmou que o evento é montado em conformidade com todos os padrões exigidos para eventos esportivos, com regulamento próprio, estrutura de segurança e critérios de participação definidos.
Na mesma publicação, é informado que a idade mínima para a participação na corrida é de 16 anos.
“Em nenhum momento a Pride Run foi concebida como um espaço para qualquer tipo de exposição infantil, tampouco como ato político-partidário ou manifestação ideológica. Trata-se de um evento esportivo, que promove saúde, bem-estar, convivência, respeito e inclusão”, diz a publicação.
A organização afirmou também que causa estranheza que o vereador tenha usado imagens de crianças que não têm nenhuma ligação com a Pride Run.
Afirmou ainda que é legítimo que qualquer cidadão ou representante eleito tenha opiniões diferentes sobre temas na sociedade, mas “não é legítimo utilizar informações distorcidas para atacar uma iniciativa que pretende unir as pessoas”.
OAB repudia falas de vereador
A Ordem dos Advogados do Brasil seccional Vila Velha também repudiou as falas do vereador e afirmou que Devacir utiliza sua fala “para atacar as comunidades LGBTQIA+, alegando que o evento em questão tem cunho aliciador e pedófilo, quando se trata apenas de uma corrida de rua”.
Na mesma nota, a OAB Vila Velha afirma que tais ataques infringem diretamente direitos fundamentais de pessoas LGBTQIA+, ferindo princípios constitucionais da igualdade e dignidade da pessoa humana.