Ao mesmo passo em que o mundo debate e desenvolve tecnologias de ponta, o agro vive uma revolução silenciosa, mas tão essencial e transformadora quanto a inovação. Nas lavouras, a passagem de bastão entre gerações vem sendo acompanhada por um novo olhar sobre a produção. É o cuidado com o solo, a proteção dos mananciais, o respeito às raízes e a busca por sistemas produtivos capazes de unir responsabilidade ambiental, rentabilidade e competitividade das propriedades.
E é por meio de manejos sustentáveis que frutas, verduras e uma pequena lavoura de café conilon crescem no Sítio Água Viva, em Nova Venécia, noroeste do Espírito Santo. A família Meneghetti cultiva alimentos orgânicos desde 2010 e possui a certificação OCS (Organismo de Controle Social), mecanismo que assegura o cumprimento das normas de produção orgânica para venda direta ao consumidor.
A experiência ao lado dos pais levou o jovem Sandro Gonçalves Meneghetti, de 20 anos, a permanecer na propriedade e investir na produção de café orgânico no Sistema Agroflorestal (SAF). “Decidi plantar café, fazer um projeto de agrofloresta. Como leva em torno de dois anos para a primeira colheita, até lá podemos consorciar hortaliças no meio da lavoura, como cebola e couve. Assim conseguimos fazer uma renda até termos o primeiro retorno da safra”, explica.
O campo vive um movimento que acomoda tradição, inovação e práticas regenerativas. Em diversas propriedades rurais, jovens produtores encontram novas formas de manter a atividade competitiva, rentável e alinhada às demandas do mercado, que já não negocia apenas volume, mas também origem e cuidado ambiental. Nesse cenário, a história do Sandro representa uma geração que enxerga oportunidades onde antes muitos viam limites. Essa é uma escolha observada tanto em propriedades de base agroecológica quanto naquelas que vêm adotando outros manejos ambientalmente responsáveis.
Em Sooretama, norte capixaba, práticas sustentáveis também foram a aposta do produtor Tiago Camiletti. Dentre algumas iniciativas, um projeto-piloto concilia pimenta-do-reino e café. “É uma área pequena que a gente tem aqui, e deu muito certo. O impacto financeiro é zero e você consegue ter uma comodidade muito grande. O aumento da biodiversidade de insetos, a redução da aplicação de defensivos, de forma geral, no combate às pragas do café, isso se reduz bastante. E ainda tem a pegada de carbono”, explica.
O produtor conta que os resultados foram obtidos após quatro anos de pesquisa aplicada. Enquanto a produtividade média do café no Espírito Santo varia entre 35 e 37 sacas por hectare, a área experimental alcançou 120 sacas por hectare na primeira safra, 152 na segunda, 157 na terceira e 160 na quarta. Segundo ele, o desempenho é resultado de um conjunto de fatores, como o espaçamento do café, a escolha do material genético, o preparo do solo e o manejo adotado na lavoura. Apesar dos índices expressivos, ele ressalta que o objetivo não é afirmar que todos os produtores conseguirão atingir esses patamares, mas demonstrar que é possível elevar a produtividade de forma viável.

O projeto ocupa apenas uma parcela da área cultivada, onde custos e resultados são cuidadosamente monitorados. Camiletti defende a integração dos três pilares da sustentabilidade. “Na cafeicultura sustentável há várias formas de avaliação. Ela tem que ser ambientalmente correta, socialmente harmônica e financeiramente viável. Não adianta pensar só no meio ambiente e esquecer a renda. Isso não é um modelo sustentável”, ressalta.
Essa visão profissional reflete uma transformação em curso no cenário capixaba. O Estado, referência nacional em produtividade, também se destaca pela qualidade e pelas boas práticas regenerativas. A avaliação é da gerente de Projetos de Cafeicultura da Secretaria da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag), Aline dos Santos Silva. “O estado consolidou-se como uma das principais referências mundiais na produção de cafés de qualidade, resultado de investimentos em assistência técnica, pesquisa, inovação e organização da cadeia produtiva. A sustentabilidade deixou de ser apenas uma exigência e passou a representar oportunidades de agregação de valor, diferenciação de mercado e aumento da rentabilidade das propriedades”, avalia.
O olhar das novas gerações já faz parte dessa construção. Essa avaliação ajuda a dimensionar que as famílias Meneghetti e Camiletti não fazem um movimento isolado. A atividade familiar é um dos fatores de sustentação da inovação na produção e dos experimentos em novas técnicas e manejos. “As famílias têm incentivado os jovens a buscar formação técnica e superior. Muitos saem temporariamente do campo para estudar e retornam às propriedades trazendo novos conhecimentos em gestão, tecnologia, comercialização e inovação. Esse movimento tem contribuído para profissionalizar a atividade rural e tornar os empreendimentos familiares mais competitivos”, pontua Aline.
Na prática, essa transformação também passa pela forma como as famílias enxergam a sucessão rural. Camiletti afirma que suas experiências pessoais influenciaram a forma como planeja a gestão da continuidade. Depois de vivenciar conflitos na infância e sofrer preconceito por crescer no meio rural, o produtor afirma que decidiu construir uma relação diferente com a própria família, incentivando os filhos a permanecerem na agricultura, e valorizando a formação e a busca por conhecimento.
Exatamente nesse contexto, pesquisa, experimentação e trabalho conjunto ajudam a moldar uma nova geração de cafeicultores. “A troca de experiências influenciou bastante na minha escolha, em que ramo eu queria crescer, me formar e construir o meu projeto de vida”, revela Sandro. A adesão de jovens produtores, como ele, reforça que o trabalho no campo não é apenas herança, mas um compromisso que aponta para um futuro mais inovador, competitivo e verde nas fronteiras do agronegócio capixaba.