Iniciativa oferece oficinas, mentorias e equipamentos para incentivar a autonomia financeira de mulheres da etnia calon por meio da valorização das artes e tradições ciganas
Um projeto voltado ao fortalecimento da autonomia econômica de mulheres ciganas da etnia calon está sendo desenvolvido nos municípios de São Mateus e Jaguaré, no Norte do Espírito Santo. Batizada de “Ciganas Capixabas Empreendedoras”, a iniciativa busca incentivar o empreendedorismo feminino por meio da valorização das artes e saberes tradicionais, oferecendo oficinas, mentorias e equipamentos para a produção artesanal.
Realizado pelo Instituto Casa Lilás, o projeto foi contemplado por um edital do Ministério da Igualdade Racial, em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). As participantes já iniciaram oficinas de costura de vestimentas tradicionais, confecção de bonecas artesanais e produção em cerâmica. A partir deste mês de agosto, também serão oferecidas mentorias em artes cênicas, perfumaria ancestral e desenvolvimento de negócios.
A iniciativa surgiu a partir da pesquisa de doutorado em Artes da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), desenvolvida pela jornalista e escritora Déborah Sathler, que há cerca de 15 anos atua junto às comunidades ciganas em parceria com a Associação de Etnias Ciganas de São Mateus (AMEC-ES).
Segundo a coordenadora do projeto, além de estimular a geração de renda, a proposta busca ampliar a visibilidade da cultura cigana e combater o racismo cultural enfrentado historicamente pelas mulheres da comunidade.
“As calins sempre empreenderam e são responsáveis por preservar grande parte das tradições e das artes ciganas. Este projeto busca fortalecer esse protagonismo, valorizar sua identidade cultural e ampliar as oportunidades de geração de renda”, destacou Déborah Sathler.
Ao todo, 20 mulheres ciganas e seus filhos participam da iniciativa, que começou em maio e é realizada na sede da AMEC-ES, na comunidade de Rio Preto, em São Mateus. Além das capacitações, cada participante receberá uma máquina de costura, moldes e materiais para iniciar a produção das peças artesanais.
A presidente da AMEC-ES, Nilcelia Santos, ressaltou a importância da iniciativa para o fortalecimento das mulheres ciganas capixabas e para a valorização da cultura do povo calon.
“Ter um projeto voltado especificamente para as mulheres ciganas representa um avanço importante. Além de incentivar o empreendedorismo, ele amplia a visibilidade da nossa cultura e foi construído respeitando a realidade e as necessidades das comunidades”, afirmou.
De acordo com dados da Associação Internacional Maylê Sara Kali (Amsk), cerca de 25 municípios capixabas possuem comunidades ciganas da etnia calon. Em âmbito nacional, o Brasil possui a terceira maior população cigana do mundo, atrás apenas da Romênia e dos Estados Unidos. Em 2024, o Governo Federal lançou o Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos, voltado à promoção de direitos e ao fortalecimento dessas comunidades.
Especializado no desenvolvimento de projetos sociais voltados para mulheres em situação de vulnerabilidade, o Instituto Casa Lilás atua desde 2020 em iniciativas que unem arte, educação e saúde mental, tendo desenvolvido ações com trabalhadoras, profissionais da saúde, jovens e comunidades tradicionais em diferentes regiões do Espírito Santo.